Posts de Maio, 2008

Trecho de “O inventor da solidão” de Paul Auster

Maio 9, 2008

Ele observa seu filho. Vê o menino mover-se pelo quarto e ouve o que ele diz. Ele o vê lidar com seus brinquedos e o escuta falar consigo mesmo. Cada vez que o menino pega um objeto, empurra um caminhão pelo chão ou acrescenta um bloco de madeira à torre que cresce diante dele, fala sobre o que está fazendo, do mesmo modo que o narrador de um filme, ou então inventa uma história para acompanhar as ações que desencadeia. Cada movimento engendra uma palavra, ou uma série de palavras; cada palavra desencadeia outro movimento: uma reversão, uma continuação, um novo conjunto de movimentos e palavras. Não há um centro definido em nada disso (“um universo em que o centro está em toda parte, a circunferência em lugar nenhum”), exceto, talvez, a consciência , que é ela mesma um campo em constante transformação de percepções, memórias e expressões. Não há lei natural que não possa ser infringida: caminhões voam, um bloco torna-se uma pessoa, os mortos ressucitam à vontade. A mente infantil desloca-se sem hesitação de uma coisa para outra. Veja, ele diz, meus brócolis são árvores. Veja minhas batatas são uma nuvem. Veja, a nuvem é um homem. Ou então, ao sentir a comida tocar sua língua, e levantando o olhar cheio de um brilho malicioso: “Sabe como pinóquio e o pai escaparam do tubarão?” Pausa, deixando que a pergunta seja absorvida. Então, num sussurro: “Andando na ponta dos pés pela língua dele”.

Às vezes A. tem a impressão de que as perambulações mentais de seu filho, enquanto brinca, são a imagem exata de seu próprio avanço pelo labirinto do livro. ele chegou a pensar que se pudesse fazer um diagrama de seu filho brincando (uma descrição exaustiva, contendo cada mudança, associação e gesto) e depois fazer um diagrama semelhante de seu livro (elaborando o que ocorre nas lacunas entre as palavras, os interstícios da sintaxe, os espaços entre as partesa – em outras palavras, desenredar o carretel de ligações), os dois diagramas seriam iguais: um se encaixaria perfeitamente no outro.