
Um dos meus livros preferidos é Herzog do Saul Bellow, que conta a história de um cara angustiado, abandonado pela mulher, que escreve, quase sempre mentalmente, cartas para Deus e o mundo. Consegui esse livro na biblioteca da UEL numa versão original de mil novecentos e setenta e pouco, desde então procuro por uma versão em português, mas só a encontrei na biblioteca do Centro Cultural São Paulo. Na época, traduzi algumas das cartas do personagem título:
Caro Dr. Scrodinger, Em “What is Life?” você diz que em toda a natureza o homem é o único que hesita em causar dor. Como a destruição é o principal método pelo qual a evolução produz novos tipos, a relutância em causar dor pode ser vista como a expressão da vontade humana de obstruir a lei natural. O cristianismo e suas principais religiões, um milênio curto, com terríveis reiravoltas… O trem havia parado, a porta já estava fechando quando Herzog levantou, espreguiçou-se e segurou no corrimão. O trem viajava para fora do centro. No Time Square, o trem ficou vazio e encheu novamente, mas Herzog permaneceu em pé, afinal seria muito difícil chegar à saída a partir de um assento. Agora, onde nós estávamos? Nos seus comentários sobre entropia… Como os organismos se mantêm contra a morte – em suas palavras, contra o equilíbrio termodinâmico… Sendo uma organização instável de matéria, o corpo trata de nos deixar. Ele nos abandona. Isso é real? É? Não nós! Não eu! Esse organismo, enquanto tem o poder de manter sua própria forma e absorver suas necessidades do meio ambiente, atraindo um fluxo negativo de entropia, a existência, a existência de coisas que ele consome, devolvendo ao mundo os resíduos em formas mais simples. Em estrume, amônia e nitrogênio. Mas a relutância em causar dor se junta à necessidade de devorar… O resultado é uma peculiaridade dos seres humanos, que consiste em admitir e negar o mal ao mesmo tempo, para ter uma vida humana e desumana. Com ingenuidade e ambição. Morder, engolir. Ao mesmo tempo comer e ter dó da comida. Ter sentimentos e, ao mesmo tempo, se comportar brutalmente. Tem sido discutido (e porque não) que a relutância em causar dor é na verdade uma forma extrema, uma deliciosa forma de sensualidade, a luxúria da dor por meio de uma patologia moral…
Prezados Senhores. O tamanho e o número dos ratos na cidade do Panamá, quando passei por ela, realmente me deixaram atônito. Vi um deles tomando sol ao lado de uma piscina. E outro olhando pra mim do lambris de um restaurante, enquanto eu comia salada de frutas. Também, num fio elétrico que se inclinava dentro de um bananal, vi um grupo inteiro de ratos ir para frente e para trás, com sua colheita. Correram pelo fio vinte vezes ou mais, sem uma só colisão. Minha sugestão é que os senhores ponham, em iscas, produtos químicos para controle da reprodução. Venenos jamais darão certo (por razões maltusianas: basta reduzir um pouco a população, e ela cresce com ainda mais vigor). Mas muitos anos de contracepção podem eliminar os ratos sem problemas.
Prezado Sr. Nietzsche. Meu prezado senhor, posso fazer uma pergunta daqui, de minha ínfima posição? Você fala sobre o poder do espírito dionisíaco para resistir contra a visão do terrível, do questionável, para permitir a luxúria da destruição, testemunhar a decomposição, a hediondez, o mal. Tudo isso o espírito dionisíaco pode fazer porque tem certo poder de se recobrar, como a própria natureza. Algumas destas expressões, preciso dizer-lhe, têm um forte tom germânico. Uma frase como “a luxúria da destruição”é positivamente wagneriana, e sei como você passou a desprezar toda aquela idiotice de Wagner, doentia e bombástica. Até agora, já vimos destruição suficiente para testar amplamente o poder do espírito dionisíaco; e onde estão os heróis que se recobraram dela? A natureza (ela mesma) e eu sozinho – nós dois juntos, nos Berkshire, e esta é minha chance para entender. Estou deitado numa rede, queixo sobre o peito, mãos cruzadas, mente embaralhada de pensamentos, agitado, sim, mas também alegre, e sei que você valoriza a alegria – a verdadeira alegria, e não a aparente sangüinidade dos epicurianos, nem a animação estratégica dos que têm corações partidos. Sei, também, que você pensa que o sofrimento profundo é enobrecedor, aquele sofrimento que queima lentamente, como madeira verde; sob este aspecto, estou, em parte, com você. Mas para esta educação mais alta, é necessária a sobrevivência. Precisamos sobreviver ao sofrimento. Herzog! Precisa parar de agredir e molestar os grandes homens! Não, na realidade Sr. Nietzsche, tenho grande admiração por você. Simpatia. Quer nos tornar capazes de viver com o nada, sem estarmos presos à boa índole e à confiança (considerações humanas ordinárias e comuns), mas questionarmos com dureza e determinação férrea, dentro do mal, através do mal, o mal passado, sem aceitarmos nenhum conforto objeto. As questões mais e mais penetrantes. Rejeitemos a humanidade como é: aquela ralé comum, prática, ladra, fedorenta estúpida, sem luzes; não só a ralé trabalhadora, mas até mesmo a turba “culta”, com seus livros, concertos, conferências, liberalismo, “amores” e “paixões” românticos e teatrais. Tudo isto merece morrer e morrerá. Está bem. Entretanto, os extremistas precisam sobreviver. Nada de sobrevivência, nada de “amor fati”. Os imoralistas também comem carne. Dirigem o ônibus – São somente os viajantes mais enjoados. A humanidade vive, principalmente, de acordo com idéias pervertidas. Pervertidas, suas idéias não são melhores que aquelas do Cristianismo , que você condena. Qualquer filósofo que queira manter contato com a humanidade, deve perverter seu próprio sistema previamente, para ver como ele realmente vai parecer algumas décadas após a adoção. Envio-lhe meus cumprimentos, destas paragens de ervosa luz temporal, e desejo-lhe felicidade, onde estiver.
Seu, sob o véu de Maya, Moisés E. Herzog.