Posts de Julho, 2007

EVERYMAN , de Philip Roth

Julho 28, 2007

Em volta do túmulo no velho cemitério estavam alguns de seus antigos colegas de publicidade de Nova Iorque, que relembravam sua energia e originalidade e diziam a sua filha, Nancy, que prazer fora trabalhar com ele. Havia também pessoas que vieram desde Starfish Beach, a vila residencial de aposentados na praia de Jersey onde ele vivera desde do dia de ação de graças de 2001 – os velhos para quem ele estava dando aulas de artes. E ali estavam seus dois filhos, Randy e Lonny, homens de meia idade, filhos de seu  turbulento primeiro casamento, muito mais filhos da mãe deles, que por conseqüência o conheciam pouco e estavam presente somente por dever, nada mais. Seu irmão mais velho, Howie, e sua cunhada estavam lá, vindos num vôo da Califórnia na noite anterior, e lá estava uma de suas ex-esposas, a do meio, a mãe de Nancy, Phoebe, uma mulher alta, de cabelos muito brancos e finos, cujo braço direito apoiava a filha firmemente. Quando perguntada por Nancy se ela queria dizer algo, Phoebe timidamente balançou  a cabeça mas acabou por seguir em frente e falar na sua voz macia, seu discurso era claramente displicente . “é apenas tão difícil de acreditar. Eu fico pensando nele nadando na baía – é isso, eu apenas sigo vendo  ele nadando ali na baía.” E então Nancy, que  fizera todos os preparativos do funeral de seu pai e telefonara para que todas aquelas pessoas viessem para que o velório não se restringisse a ela, sua mãe, o irmão de seu pai e a esposa. Havia apenas uma pessoa cuja a presença não tinha a ver com  seus convites, uma mulher robusta de rosto redondo e amigável e cabelos  vermelhos tingidos apareceu no cemitério e se apresentou como Maureen, a enfermeira particular que havia tomado conta dele depois de sua cirurgia cardíaca anos atrás. Howie lembrou-se dela e foi beija-la no rosto.

            Nancy disse a todos, “Eu posso começar dizendo algo a vocês sobre este cemitério, porque eu descobri que o avô de meu pai, meu bisavô, não somente está enterrado junto a minha bisavó nos poucos alqueires originais deste cemitério, como foi um de seus fundadores em 1888. A associação que fundou e ergueu este cemitério era composta por sociedades funerárias de organizações e congregações judias benevolentes distribuídas pelos condados de Union e Essex. Meu bisavô possuía e administrava uma pensão  que recebia especialmente imigrantes recém-chegados, e se preocupava com o bem estar deles mais do que um mero proprietário. É por isso  que ele estava junto aos membros originais que compraram o campo aberto que aqui se encontrava e que eles mesmos dividiam e arrumaram o cemitério, por isso ele foi o primeiro diretor deste cemitério. Ele era relativamente jovem naquela época, mas em todo o seu vigor. E é seu nome que está assinado no documento especificando que o cemitério era para “enterrar os membros falecidos de acordo com as leis e rituais judaicos.”  Como é óbvio a manutenção dos lotes individuais e das cercas e portões não é mais como deveria ser. As coisas estão danificadas e tiradas do lugar, os portões estão enferrujados, os cadeados foram roubados, tem havido vandalismo. Este lugar acabou por se tornar os fundos do aeroporto e o que vocês estão ouvindo de algumas milhas de distância é o ruído diário do Aeroporto de Nova Jersey. É claro que a princípio eu pensei nos lugares realmente bonitos onde meu pai poderia ser enterrado, os lugares onde ele e minha mãe costumavam nadar quando eram jovens, os lugares onde ele gostava de nadar no litoral. Ainda assim, apesar do fato de ao olhar ao redor ver toda essa deterioração me parte o coração – como provavelmente deve ocorrer com vocês, e talvez façam vocês imaginarem porque estamos reunidos neste local tão assustador – Eu gostaria que ele se deitasse próximo àqueles que o amaram e de quem ele descende. Meu pai amava os pais dele e deve estar perto deles. Eu  não gostaria que ele estivesse em outro lugar sozinho.” Ela ficou calada por um momento para se reconstituir. Ela era uma mulher de face amigável nos seus trinta e poucos anos, absolutamente linda como sua mãe havia sido, ela parecia ao mesmo tempo nenhum um pouco autoritária ou mesmo brava, mas como uma garota de dez anos emburrada. Ao virar em direção ao caixão, ela pegou um punhado de terra e, antes de atirar sobre a tampa do caixão, sussurrou com o ar calmo de uma jovem perdida, “Bem, é assim que termina. Não há nada mais que possamos fazer, papai.” Então ela relembrou seu próprio retrospecto das últimas décadas e começou a chorar. “Não existe refilmagem da realidade”, ela disse a ele. “Apenas aceite como é. Pegue a sua terra e a aceite como ela é.”

            O próximo a atirar terra sobre o tampo do caixão foi Howie, que fora objeto de sua idolatria quando eles eram criança e em troco havia tratado-o sempre com gentileza e afeição, pacientemente ensinando-o a andar de bicicleta, a nadar e a praticar todos os esportes nos quais ele, Howie, era o melhor. Ainda parecia que ele era capaz de jogar futebol, e ele tinha setenta e sete anos. Ele nunca fora hospitalizado por nada e, apesar de serem raça da mesma linhagem, permanecera triunfantemente saudável por toda a vida.

            Sua voz estava estrondosa de emoção quando ele sussurrou para sua mulher, “Meu irmão mais novo. Isso não faz sentido.” Então ele se dirigiu a todos. “Vamos ver se posso faze-lo. Vamos falar sobre esse cara. Sobre meu irmão…” Ele fez uma pausa para ordenar seus pensamentos e poder falar. Sua forma de falar e  seu agradável tom de voz eram tão parecidos com o de seu irmão que Phoebe começou a chorar, e, rapidamente, Nancy a tomou pelos braços. “No seus últimos anos,” ele disse, olhando para o túmulo, “ele teve problemas de saúde, e havia também a solidão – um problema não menos sério. Nós falávamos ao telefone sempre que podíamos, apesar de que próximo ao fim de sua vida ele se isolou de mim por razões que nunca foram claras. Dos tempos em que estávamos no colegial ele tinha um impulso irresistível pela pintura, e depois de se aposentar da publicidade, onde ele fez um considerável sucesso, primeiro como diretor de arte e depois foi promovido a diretor de criação – depois de uma vida na publicidade ele pintou praticamente todos os dias de todos os anos que sobraram para ele. Nós podemos dizer dele o que sem dúvida foi dito de todos os que estão enterrados aqui por seus entes queridos: ele devia ter vivido mais. Ele devia mesmo, de fato.” Aqui, após um momento de silencio, a resignada melancolia que aparecia em seu rosto deu lugar a um sorriso de pesar. “Quando eu comecei o colegial e tinha treinos pela tarde, ele assumiu meu itinerário que eu fazia para o meu pai depois da escola. Ele adorava, tendo apenas nove anos, carregar os envelopes de diamantes no bolso de sua jaqueta pelos ônibus para Newark, até os avaliadores, polidores e reparadores assistentes que nosso pai utilizava, cada um em próprio seu cubículo situados na Frelinghuysen Avenue. Essas viagens davam ao garoto um enorme prazer. Acho que assistir àqueles artesãos fazendo seus solitários trabalhos em seus pequenos e apertados estabelecimentos deu a ele a idéia de usar suas mãos para fazer arte. Acho que olhar para as facetas dos diamantes através das lupas de meu pai é algo que despertou o desejo dele de fazer arte.”  De repente uma risada tomou conta de Howie, um pequeno lapso de alívio em seu discurso, e ele disse: “Eu era o irmão convencional, em mim os diamantes despertaram o desejo de fazer dinheiro.” Então ele terminou onde ele havia interrompido, olhando pela grande e ensolarada janela da infância deles. “Nosso pai tinha um pequeno anúncio mensal no Elisabeth Journal. Durante a temporada de férias, entre Ação de graças e Natal, nós anunciávamos uma vez por semana. ‘Troque o seu velho relógio por um novo.’ Todos esses velhos relógios que ele acumulava – a maioria deles sem reparo – ficavam amontoados numa gaveta nos fundos da loja. Meu irmãozinho podia ficar sentado lá por quatro horas, dando cordas e escutando os tiques dos relógios, se eles ainda tinham, e estudando a aparência dos relógios e como eles eram. Foi aquilo que deixou aquele garoto esperto. Cem, duzentos relógios trocados, toda a gaveta provavelmente não valiam mais que dez pratas, mas para seus olhos de futuro artista, aquela gaveta de relógios era uma arca de tesouros. Ele costumava pegá-los e usá-los – ele sempre tinha um relógio que estava fora da gaveta. Aquele que funcionava. Aquele que ele tentava fazer funcionar, cuja a aparência o agradava, ele ficava arrumando-os mas não adiantava – geralmente ele só os deixavam piores. Ainda assim, aquele foi o início da sua utilização das mãos para tarefas meticulosas    Meu pai sempre teve duas garotas recém saídas do colegial, no final da adolescência, nos primeiros vinte e poucos anos, ajudando-o atrás do balcão da loja. Doces e ótimas garotas de Elisabeth, bem educadas, bem vestidas, sempre cristãs, principalmente católicas irlandesas, cujos pais, irmão e tios trabalhavam para a Singer Sewing Machine, para a indústria de biscoito ou no porto. Ele imaginava que boas garotas cristãs fariam os clientes se sentirem mais em casa. Se fosse pedido, as garotas provavam as jóias para os clientes e se tínhamos sorte, as mulheres acabavam comprando. Como meu pai nos disse certa vez, quando uma bela jovem usa uma jóia, outras mulheres acham que quando elas usarem aquela jóia ficarão com aquela aparência também.

Nelson Cavaquinho

Julho 5, 2007