Posts de Junho, 2007

Solução para o trânsito

Junho 27, 2007

O vendedor moralista

Junho 12, 2007

 

Desde que foi despedido da loja de carros usados do tio, Wilson nunca mais viu qualquer tipo de vendedor com os mesmos olhos. Passava horas odiando os pastores que vendiam a salvação para pobres desesperados que não tinham tevê a cabo. Rangia os dentes e se inquietava num misto de ódio e admiração quando assistia a palestras de gurus de auto-ajuda, que para ele não diziam nada, eram só oportunistas vendendo obviedades. Suas pretensões artísticas, sua visão de cronista de botequim e, principalmente, sua moral  o impediam de exercer aquela profissão. Se interessou pelo mercado de quadros e esculturas e pensou que talvez haveria ali uma oportunidade de conciliar uma profissão normal com seus interesses pessoais. Embora achasse que seus quadrinhos se aproximassem mais de literatura do que de artes plásticas, seria mais proveitoso e interessante lidar com aquelas obras do que com os automóveis e seus tão empolgados compradores.

Mas sua carreira no mercado de artes foi curta. Ele implicava com leloeiros; admirava mais os falsários, a quem atribuía maior honestidade, os considerava em busca da alma do artista, como atores, biógrafos ou mesmo cartunistas que adaptavam obras literárias, que era o caso dele. Já os leiloeiros eram como vendedores de automóveis mais esnobes.

Wilson foi despedido quando descobriram que um falsário amigo seu, um velho judeu americano que chegara ao Brasil num cargueiro potuguês, fora preso após vender uma falsificação grosseira da “Vênus de Urbino” de Ticiano para uma velha madame que se dizia apreciadora de obras renascentistas. Suspeitaram que Wilson intermediara a transação. Ele negou. Embora admirasse os falsários, não gostava da idéia de enganar uma pessoa. No final das contas saiu satisfeito com as verbas recebidas na demissão.

Apesar de sua aversão ao mundo dos negócios, este parecia perseguir Wilson. Algumas semanas após a demissão da corretora de obras de arte, ele foi contratado por uma seguradora. Depois de vender emoções, pensamentos e sofrimento expressos, venderia agora a precaução contra qualquer imprevisto, qualquer emoção ou sofrimento possíveis. Começou um treinamento e logo de cara não gostou de seu chefe. Ele era tudo o que lhe causava ojeriza, o perfeito businessman, vivia citando frases de efeito e metáforas idiotas para dizer que o que importa é trabalhar e ganhar dinheiro. No entanto, no setor em que  trabalhava havia uma garota que lhe chamou a atenção. Na verdade ela despertava o interesse de todos os homens, se parecia com aquelas mulheres desenhada por Milo Manara, e faria Wilson vender com prazer as mais variadas apólices de seguro. Mas logo veio o balde de água fria. Wilson descobriu que seu chefe, o asqueroso Matias, havia “comido”(como disse seu rechonchudo colega, vizinho de baia) Raquel, sua nova e tão cultuada musa. O efeito da derrubada de Raquel de seu pedestal não poderia ser melhor, Wilson agora quase não babava quando falava com a bela garota, se dirigia a ela com a seriedade peculiar de um homem ciumento e desiludido e isso fez Raquel se sentir meio atraída por ele.

Duas semanas mais tarde, atormentado com o novo emprego e ainda sofrendo de amor por Raquel, após um curso intensivo de estratégias de vendas, Wilson teve um sonho onde uma empresária muito gostosa chamada Lucy Fernanda o contratava para dirigir uma grande empresa e, depois de assinar o contrato e receber os mais altos elogios, treparam alucinadamente. Daquele dia em diante a vida de Wilson mudou. Naquela mesma manhã foi trabalhar muito mais disposto, mais confiante, sentia que poderia fazer qualquer coisa. E sua carreira, enfim, começou a deslanchar. Até os elogios do chefe ele recebia com orgulho agora.

Até que um dia, num coquetel da seguradora, onde Wilson recebeu um prêmio de melhor vendedor do bimestre, após algumas doses de uísque, ele resolveu falar com Raquel. A conversa ia muito bem, estava prestes a tentar beija-la quando, voltando do banheiro, flagrou o asqueroso Matias falando para sua quase namorada: “Você não vai ficar com aquele frangote né? Minha mulher tá viajando, vamos lá pra casa…” Ele ficou furioso, tudo parecia girar, vários flashes lhe vinham a cabeça, o chefe dando gargalhadas, o chefe comendo sua bela pretendente e, por fim, a empresária Lucy Fernanda dizendo “Nossa Wilson, Como você é forte!”.  Não se lembrava de nada do que ocorrera daí em diante. Só ficou sabendo no outro dia quando acordou. Ele espancara o chefe que estava hospitalizado. Utilizara a última e mais primitiva de suas virtudes destacadas pela bela e sedutora empresária.