Achados e Perdidos

outubro 9, 2010

Antigamente eu costumava copiar trechos de livros de que eu gostava. Era um exercício interessante, além de memorizar melhor o livro (o que não é tão importante), eu praticava uma escrita de qualidade, o que não ocorria quando escrevia coisas originais. Há poucos dias encontrei no fundo de uma gaveta a transcrição (imagino que seja, nunca escreveria algo tão bom, obviamente) de um trecho de um livro do qual não me lembro. É genial, mas não lembro de onde saiu. Alguém aí, entre meus milhares de eruditos leitores, sabe de onde saiu isso aqui? Alguém tem ao menos um palpite? Pode ser um chute. Eu, não faço a mínima idéia. 

“Uma vez só, não pensei na saúde do meu pai, comovido e – posso dizê-lo – com todo respeito filial deplorei que um espírito como aquele, aspirando a metas tão elevadas, não tivesse tido a oportunidade de uma melhor educação. Hoje que escrevo, depois de me haver avizinhado da idade que meu pai tinha àquela época, sei por experiência que um homem pode ter consciência de possuir um elevado intelecto, mesmo quando essa consciência é a única prova que tem disso. Basta isso: enchemos os pulmões de ar e sentimos como a natureza é grandiosa e como nos apresenta imutável: é assim que manifestamos e participamos da mesma experiência que concebeu a Criação. É certo que o sentimento de inteligência de meu pai no último instante lúcido de vida foi originado por sua repentina inspiração religiosa, tanto é verdade que se dispôs a falar-me depois de saber que eu andara ocupado com as origens do cristianismo. Contudo, agora sei que tal sentimento era também o primeiro sintoma de um edema cerebral.”

Imposturas Gastronômicas

fevereiro 23, 2010

 

A maior parte das pessoas não se sente à vontade comendo sozinha num restaurante. Eu não tenho esse problema; até gosto, me concentro mais na comida em si, não sofro nenhuma influência que não seja do meu próprio apetite. Acabo de voltar sozinho de um restaurante e tive uma refeição bastante interessante e saborosa. Comi de entrada uma língua de porco cozida e fria e de prato principal uma sopa de coentro com pequenos bolinhos de peixe (muito semelhantes ao guefilte fish). Tive que apontar para a foto no cardápio escrito em chinês: nem eu falo chinês, nem os garçons falavam qualquer idioma que eu conheça. A língua, servida fria, com as papilas e tudo, tinha um leve sabor de vísceras e um tempero em que o óleo de gergelim predominava, mas não ofuscava uma complexidade que remetia ao tradicional pato de Pequim. A sopa de coentro era um caldo de peixe bastante suave coberto com uma generosa porção de coentro que escondia as alvas bolinhas levemente gelatinosas de carne de peixe. Apesar de eu ter ficado curioso com vários dos pratos que as famílias chinesas pediam nas outras mesas, fiquei bastante satisfeito com minha escolha. Nunca tinha comido nada parecido e o estranhamento não podia ser mais agradável. E o mais interessante de tudo é que essa refeição, embora pareça ter acontecido numa viagem à China, foi feita a 20 minutos de metrô de meu apartamento em Pinheiros.
Em São Paulo essas experiências podem ser corriqueiras. Há uma infinidade de restaurantes desconhecidos e interessantes que nos dão a sensação de termos atravessado algum portal que nos transporta imediatamente a outro lugar ou a outra época. Há também restaurantes famosos e interessantes, famosos e não tão interessantes, enfim, existe de tudo, desde o lugar em que você se sente roubado (pelo preço pago em relação à qualidade da comida) até o que você sente que está roubando o dono do restaurante.
Qualquer um que se interesse um pouco por comida acaba, pelo menos em algum momento, fascinado com o que se pode comer em São Paulo. O que nem tanta gente se interessa é pelo que ocorre no interior das cozinhas, e talvez essa seja a melhor escolha muitas vezes. Afinal, para que estragar o prazer daquelas efêmeras refeições? Para que se preocupar com o que acontece (antes de chegar à mesa) com a comida daquele restaurante por quilo que você come toda semana? Para que descobrir os verdadeiros ingredientes daquele prato daquele restaurante que você gosta tanto?

Na realidade essa introdução idiota não mais se justifica, ela fora criada porque eu tinha a intenção de participar de um concurso promovido pela câmara municipal, se não me engano, intitulado “São Paulo, capital mundial da gastronomia”. Talvez seja um resquício de meu último ofício (concurseiro profissional), essa idéia estúpida de mandar isso para um concurso, mas agora prazo já expirou e estou livre para relatar de qualquer forma minha iniciação no mundo da gastronomia. A idéia inicial era falar das opções gastronômicas de São Paulo e em seguida, ou entremeado a esta parte, contar um pouco dos bastidores dos restaurantes. Mas deixa isso pra lá, vou contar da forma mais direta possível minha experiência.

Quanto ao título, a idéia original era relacionar o plágio do parágrafo posterior , ou o fato de eu plagiar um autor em meu texto, com a minha contratação como cozinheiro depois de apenas 2 meses de estágio voluntário num restaurante. No entanto, apesar do plágio, eu não conseguiria descrever tão bem o que eu estou passando, como Orwell o fez (adaptado):

A típica vida de um cozinheiro não me parece ruim. Apesar do salário não ser bom, de ser insuficiente para pagar todas as minhas despesas, não me sinto tão mal quanto me sentia quando advogado sempre prestes a começar a ganhar muito dinheiro. Sinto uma espécie de contentamento pesado, a satisfação que um animal bem alimentado talvez sinta, com essa vida tão simples. Afinal, nada é mais simples do que a vida de um cozinheiro. Ele vive num ritmo entre o trabalho e o sono, sem tempo para pensar, pouco consciente do mundo exterior; sua São Paulo se resume ao seu apartamento, o metrô, alguns bares e cama. Se sai disso, não vai além de algumas ruas adiante, num passeio com alguma garçonete que senta em seu colo engolindo torresmos frios entre goles de cerveja. Durante as folgas, dorme até tarde, veste uma roupa sem cheiro de gordura, sai para tomar algumas cervejas e volta para a cama cedo. Nada é muito real para um trabalhador da cozinha, exceto sua praça, beber e dormir.

Um sujeito que trabalha na cozinha vive, inevitavelmente, numa espécie de universo paralelo. Enquanto todos descansam, ele trabalha. Pouca gente imagina o contraste entre o ambiente de um salão de restaurante e o da cozinha do mesmo restaurante, poucos vislumbram (a não ser nos restaurantes em que as cozinhas são abertas e os cozinheiros são naturalmente censurados) por quem, por onde passa seu prato, pedido a um garçom simpático (ou esnobe), mesmo que as pessoas que trabalham nessa cozinha sejam finas e polidas, haverá, além de muita grosseria, comentários escatológicos (isso é engraçado, talvez por ser um trabalho tão primitivo em sua essência, as pessoas tendem a abolir algumas amarras sociais relativas a seus pudores). Nas cozinhas em que se permite que os funcionários ouçam rádio, as únicas notícias além dos “marcha”e “marcha e sai” são as trazidas pelas vozes uniformemente irritantes dos DJs das rádios, Além, é claro, da vida sexual da parceira do seu vizinho de praça. Ninguém comenta o que o Sarney aprontou na semana, ninguém dá a mínima para o que disse o Collor no Senado Federal.

Anthony Bourdain diz em seu livro Cozinha Confidencial que quem trabalha em cozinha foge de alguma coisa. Seja do casamento, da pobreza, das drogas, da loucura. O meu caso não foi muito diferente. Embora a princípio eu tenha inventado a desculpa para mim mesmo de que minha vida na cozinha se resumiria a esta reportagem, na realidade eu decidi trabalhar na cozinha para fugir do meu futuro brilhante (de alto funcionário público, de orgulho da família), das inevitáveis frustrações quanto à qualidade do que escrevo e, por fim, da loucura. Certo dia, depois de uma manhã inteira tentando me concentrar na décima leitura da Constituição Federal no ano e controlar o incessante tremular de minhas pernas patologicamente inquietas, decidi procurar emprego num restaurante. Deixei minha baia de estudos, dei uma última olhada para minha insana centena de colegas, que aparentemente tentava decorar as mais variadas leis, e respirei aliviado. Me senti mais ou menos como um Bartebly às avessas ao deixar aquela sala de estudos, e disse a minha própria e alarmada consciência: Me desculpe, mas prefiro fazê-lo.

Imprimi um currículo em que as únicas informações relevantes eram meu nome, endereço e telefone e saí pela rua distribuindo cópias por todo restaurante mais ou menos sofisticado que encontrava. Lá pelo oitavo restaurante um chef rechonchudo, mais ou menos simpático, com os cabelos ensebados com gel e penteados para trás, o que lhe conferia um ar meio aristocrático, me deu as primeiras esperanças. “Você tem alguma experiência em cozinha?”.
Não. Respondi. Sou advogado e resolvi tentar a vida na cozinha, começarei o curso de gastronomia em breve e gostaria de conhecer a vida na cozinha. Ele olhou para o currículo, pensou, e disse “Nós estamos precisando de alguém, sim. Deixe este currículo comigo que eu te dou a resposta ainda hoje.”

Saí de lá animado, fui até a uma LAN house e pesquisei sobre o restaurante, o chef, o cardápio. Depois de algumas horas ele me ligou marcando uma entrevista. No dia seguinte fui até o restaurante, o chef me esperava numa mesa cercada por plantas e um cacho de bananas falsas de madeira. Começou a entrevista repetindo a pergunta “Você não tem nenhuma experiência em cozinha?” “profissional não, sempre gostei de cozinhar em casa, mas sei que em um restaurante é completamente diferente..”

“É, uma coisa não tem nada a ver com a outra, alguns até deixam de gostar de cozinhar depois que o fazem profissionalmente. Mas você sabe diferenciar uma mandioquinha de uma salsinha?”
Tentei ser esperto e respondi “sei até distinguir uma salsinha de um coentro?”, mas ele não gostou da resposta, me pôs de volta ao meu lugar dizendo que lá eles não usavam coentro, portanto minha habilidade especial não teria nenhuma serventia. Me perguntou se eu podia começar naquele dia mesmo e me apresentou aos cozinheiros. Eu trabalharia durante os almoços dos dias de semana e só receberia vale transporte e a refeição no local. Somente naquele dia eu trabalharia durante o jantar, já que haveria um evento e um ajudante de cozinha não poderia ir.    Continua….

Changes

janeiro 21, 2009

penteado-021

Líderes no mercado de perucas anunciam fusão

novembro 11, 2008

Diretores das duas empresas comemoraram a fusão utilizando o novo modelo que estará no mercado em janeiro de 2009.

Diário de Filmagem de Woody Allen

agosto 29, 2008

Excerpts From the Spanish Diary JAN. 2

RECEIVED offer to write and direct film in Barcelona. Must be cautious. Spain is sunny, and I freckle. Money not great either, but agent did manage to get me a 10th of 1 percent of anything the picture does over $400 million after break even.

Have no idea for Barcelona unless the story of the two Hackensack Jews who start a mail-order embalming firm could be switched.

MARCH 5

Met with Javier Bardem and Penélope Cruz. She’s ravishing and more sexual than I had imagined. During interview my pants caught fire. Bardem is one of those brooding geniuses who clearly will need a firm hand from me.

APRIL 2

Offered role to Scarlett Johansson. Said before she could accept, script must be approved by her agent, then by her mother, with whom she’s close. Following that it must be approved by her agent’s mother. In middle of negotiation she changed agents — then changed mothers. She’s gifted but can be a handful.

JUNE 1

Arrived Barcelona. Accommodations first class. Hotel has been promised half star next year provided they install running water.

JUNE 5

Shooting got off to a shaky start. Rebecca Hall, though young and in her first major role, is a bit more temperamental than I thought and had me barred from the set. I explained the director must be present to direct the film. Try as I may, I could not convince her and had to disguise as man delivering lunch to sneak back on the set.

JUNE 15

Work finally under way. Shot a torrid love scene today between Scarlett and Javier. If this were a scant few years ago, I would have played Javier’s part. When I mentioned that to Scarlett, she said, “Uh-huh,” with an enigmatic intonation. Scarlett came late to the set. I lectured her rather sternly, explaining I do not tolerate tardiness from my cast. She listened respectfully, although as I spoke I thought I noticed her turning up her iPod.

JUNE 20

Barcelona is a marvelous city. Crowds turn out in the streets to watch us work. Mercifully they realize I’ve no time to give autographs, and so they ask only the cast members. Later I handed out some 8-by-10 photos of myself shaking hands with Spiro Agnew and offered to sign them, but by then the crowd had dispersed.

JUNE 26

Filmed at La Sagrada Familia, Gaudi’s masterpiece. Was thinking I have much in common with the great Spanish architect. We both defy convention, he with his breathtaking designs and me by wearing a lobster bib in the shower.

JUNE 30

Dailies are looking good, and while Javier’s idea to add a massive Martian invasion scene complete with a thousand costumed extras and elaborate flying saucers is not a very good one, I will shoot it to make him happy and cut it in the editing room.

JULY 3

Scarlett came to me today with one of those questions actors ask, “What’s my motivation?” I shot back, “Your salary.” She said fine but that she needed a lot more motivation to continue. About triple. Otherwise she threatened to walk. I called her bluff and walked first. Then she walked. Now we were rather far apart and had to yell to be heard. Then she threatened to hop. I hopped too, and soon we were at an impasse. At the impasse I ran into friends, and we all drank, and of course I got stuck with the check.

JULY 15

Once again I had to help Javier with the lovemaking scenes. The sequence requires him to grab Penélope Cruz, tear off her clothes and ravish her in the bedroom. Oscar winner that he is, the man still needs me to show him how to play passion. I grabbed Penélope and with one motion tore her clothes off. As fate would have it she had not yet changed into costume, so it was her own expensive dress I mutilated. Undaunted I flung her down before the fireplace and dove on top of her. Minx that she is, she rolled away a split second before I landed causing me to fracture certain key teeth on the tile floor. Fine day’s work, and I should be able to eat solids by August.

JULY 30

Dailies looking rather brilliant. Probably too early to start planning Academy campaign. Still, a few notes for an acceptance speech might just save me some time later.

AUG. 3

I suppose it comes with the territory. As director one is part teacher, part shrink, part father figure, guru. Is it any wonder then that as the weeks have passed, Scarlett and Penélope have both developed crushes on me? The fragile female heart. I notice poor Javier looking on enviously as the actresses bed me with their eyes, but I’ve explained to the boy that unbridled feminine desire for a cinema icon, particularly one who wears a sneer of cold command, is to be expected. Meanwhile when I approach the set each morning bathed and freshly scented, between Scarlett and Penélope there is a virtual feeding frenzy. I never like mixing business with pleasure, but I may have to slake the lust of each one in turn to get the film completed. Perhaps I can give Penélope Wednesdays and Fridays, satisfying Scarlett Tuesdays and Thursdays. Like alternate-side parking. That would leave Monday free for Rebecca, whom I stopped just in time from tattooing my name on her thigh. I’ll have a drink with the ladies in the cast after filming and set some ground rules. Maybe the old system of ration coupons could work.

AUG. 10

Directed Javier in emotional scene today. Had to give him line readings. As long as he imitates me he’s fine. The minute he tries his own acting choices he’s lost. Then he weeps and wonders how he’ll survive when I’m no longer his director. I explained politely but firmly that he must do the best he can without me and to try to remember the tips I’ve given him. I know he was cheered because when I left his trailer, he and his friends were howling with laughter.

AUG. 20

Made love with Scarlett and Penélope simultaneously in an effort to keep them happy. Ménage gave me great idea for the climax of the movie. Rebecca kept pounding on the door, and I finally let her in, but those Spanish beds are too small to handle four, and when she joined, I kept getting bounced to the floor.

AUG. 25

End production today. Wrap party as usual a little sad. Slow danced with Scarlett. Broke her toe. Not my fault. When she dipped me back, I stepped on it.

Penélope and Javier anxious to work with me again. Said if I ever come up with another screenplay to try and find them. Goodbye drink with Rebecca. Sentimental moment. Everyone in cast and crew chipped in and bought me a ballpoint pen. Have decided to call film “Vicky Cristina Barcelona.” Studio heads have seen all the dailies. Apparently they love every frame, and there is talk of opening it at a leper colony. It’s lonely at the top.

Publicado originalmente em  http://www.nytimes.com/2008/08/24/movies/24alle.html?_r=1&sq=woody20allen&st=cse&oref=slogin&scp=2&pagewanted=all

HABEMUS OBAMA

junho 8, 2008

Eterno candidato ao Nobel, Philip Roth fala de “Fantasma Sai de Cena”, que está sendo lançado no Brasil, de eleições nos EUA e diz que “as telas derrotaram as páginas”


Em 20 anos, ler será hobby de uma minoria; alguns criarão cachorros ou peixes tropicais, e outros lerão


JESÚS RUIZ MANTILLA

A linguagem é a caixa de ferramentas comum a todos, da qual cada um tira o que precisa. Mas sempre há algo que diferencia uns de outros. No caso de Philip Roth, esse diferencial é a raiva. Esse talvez seja o traço que melhor define a obra de um dos escritores vivos que mais marcou seus contemporâneos nas últimas décadas. Mas não se trata de uma raiva estéril ou cega. É uma raiva que contribui, que constrói, que nos ajuda a viver.
Em seus romances não há muita esperança: “Será que não quero que a tenham?”, ele próprio comenta, sentado na pequena sala de reuniões da agência do homem conhecido como Chacal, que administra a carreira literária de Roth a partir de um escritório na rua 57, em Nova York. É um lugar frio, onde nem o fato de o aquecimento estar ligado à toda consegue fazer o gelo desgrudar das paredes.
Apenas Philip Roth consegue fazê-lo, com sua voz um tanto quanto rouca devido à passagem dos anos -ele já chegou aos 75.
Há dentro desse desespero uma vitalidade, uma voz, que se nega a render-se. É o que ocorre quando se lê “Fantasma Sai de Cena” (“Exit Ghost”, Cia. das Letras, trad. Paulo Henriques Britto, 282 págs., R$ 42), em que Roth traz de volta Nathan Zuckerman, um de seus alter egos mais importantes, como também o foram o professor David Kepesh e o célebre protagonista do hilário “O Complexo de Portnoy”.
Em seu novo livro, Roth persegue o fantasma de um escritor morto a quem quer dedicar uma biografia que vai escancarar aspectos escabrosos de sua vida. Se se tratasse de Roth, isso não seria necessário. O autor de “Pastoral Americana” compartilhou sua vida com seus leitores, passo a passo. Desde a infância em Weequahic (bairro histórico da perigosa Newark, em Nova Jersey) até a velhice, vivida entre Nova York e a casa de campo em Connecticut, este autor fundamental, eterno candidato ao Prêmio Nobel, não deixou ninguém indiferente.
Nem seus compadres da comunidade judaica, que mais de uma vez se enfureceram com a visão crua e impiedosa que mostra de seu próprio mundo, nem os cristãos, que em seus livros são obrigados a suportar desde a blasfêmia até o disparo constante de uma munição distante da moral e dos costumes decentes dos mais retrógrados.
Pois seus romances, a não ser que ele faça ficção política, como em “Complô Contra a América”, jogam no campo da realidade.
E, se “Casei com um Comunista” foi o romance da era McCarthy, e “A Marca Humana”, a obra-prima da era Clinton, “Fantasma Sai de Cena” surge com a ambição de ser um afresco da intra-história da era Bush -”o pior presidente que este país já teve”, diz Roth.  

PERGUNTA – Percebe-se que o sr. é um escritor que se preocupa com seus leitores. Tem leitores bons, fiéis -embora, em “Fantasma Sai de Cena”, se queixe de que eles já não existem. Onde eles estão?
PHILIP ROTH
- Onde? Olhando para as telas de seus computadores, as telas da televisão, dos cinemas, dos DVDs. Distraídos por formatos mais divertidos. As telas nos derrotaram.

PERGUNTA – Como os escritores podem combater essa concorrência acirrada das telas?
ROTH
- Não sei. Não me coloco essa pergunta seriamente. Apenas posso lhe dizer o que aconteceu: que as telas venceram a batalha contra as páginas.

PERGUNTA – O sr. não acredita no tão alardeado “Kindle”, o livro eletrônico que acaba de sair nos EUA?
ROTH
- Ainda não o vi, mas duvido que tome o lugar de um objeto como o livro. A solução não é transpor livros para telas eletrônicas. Não é isso. O problema é que o hábito da leitura desapareceu. Como se, para ler, precisássemos de uma antena, e ela tivesse sido cortada. O sinal não chega mais. A concentração, a solidão, a imaginação que o hábito da leitura exige… Perdemos a guerra. Dentro de 20 anos, a leitura será algo restrito a uma seita.

PERGUNTA – E os leitores são raros, assim como espectros?
ROTH
- Não, não. Também não é isso. Ler será hobby de uma minoria. Alguns criarão cachorros ou peixes tropicais, e outros lerão. Como é o caso da leitura de poesia, hoje. Existem poetas, eles são publicados, mas os leitores de poesia são uma minoria. É isso o que vai acontecer.

PERGUNTA – Em seu novo livro, o sr. volta a colocar em campo seu alter ego Nathan Zuckerman. Ele passou anos longe de tudo, sozinho, no campo, trabalhando. O sr. também renunciou a muitas coisas na vida?
ROTH
- Zuckerman está aposentado, leva uma vida de recluso, lendo e escrevendo. Ele se afastou do mundo por várias razões. Deixou Nova York depois de receber ameaças e passou a gostar de viver no campo.

PERGUNTA – Essas ameaças são fortes. O sr. enfatiza isso. O racismo contra judeus nos EUA aumentou nos últimos anos?
ROTH
- Não. É uma constante.

PERGUNTA – Pouco tempo depois de retornar a Nova York, Zuckerman já quer ir embora.
ROTH
- Ele não suporta mais a cidade.

PERGUNTA – Muitas coisas o ameaçam -entre elas, a beleza.
ROTH
- Bem, ele se rende diante dela, mas ela também o assusta. Como o câncer do qual sofre, como o passado e a nostalgia dele.

PERGUNTA – Sempre acontece com seus personagens: essa força narrativa agarra o leitor pelo estômago, desde o início. O sr. faz isso de propósito? Começar mirando as entranhas mais que o cérebro?
ROTH
- Não sei que parte do corpo eu agarro. O que quero é ser direto e assinalar o caminho mais direto para o leitor mergulhar no livro. Meus começos são rápidos. A chave está em captar a atenção do leitor, para então desenvolver a profundidade.

PERGUNTA – O sr. coloca demais de si mesmo, de sua própria experiência. É uma tendência que vem penetrando na literatura contemporânea de todo lugar. Histórias com vozes poderosas.
ROTH
- Bem, é a voz que nos distingue uns dos outros. Não creio que seja um fenômeno dos últimos anos, e sim uma característica da própria literatura. A voz não é uma técnica. A voz é o que marca a diferença.

PERGUNTA – Como autor que reflete o tempo em que vive, se “A Marca Humana” foi seu livro da era Clinton, “Fantasma Sai de Cena” é o da era Bush. Como será o livro da América de Obama?
ROTH
- Quem sabe? Não podemos prever nada. Em nossas vidas, podemos programar os próximos quatro anos. Na política, os próximos quatro anos são um mistério. Quem poderia ter imaginado, pouco tempo atrás, o desastre em que se transformou o Iraque?

PERGUNTA – O que restará de George W. Bush?
ROTH
- Muito pouco. Muitos danos provocados. Levando-se em conta unicamente os números, ele levou o país à falência. Destruiu nossa reputação moral no mundo. Matou centenas de milhares de iraquianos sem motivo. Bush tem sido um desastre, o pior presidente de nossa história.

PERGUNTA – Talvez a reação contra a era Bush tenha suscitado essa necessidade tão radical de mudanças. É a primeira vez em que um negro [Barack Obama] e uma mulher [Hillary Clinton] disputam a Presidência, com chances de ganhar.
ROTH
- Essa avalanche de pessoas que querem votar nas primárias e de entusiasmo por seus respectivos candidatos é uma reação evidente à era de Bush. É a necessidade de fazer algo, de corrigir a situação.

PERGUNTA – Dez anos atrás, a candidatura de Obama teria sido ficção política.
ROTH
- Sem dúvida. Foi Bobby Kennedy, 40 anos atrás, quem disse que em 50 anos teríamos um presidente negro. Ele chegou mais ou menos perto. Uma das vantagens do modo como as primárias aconteceram é que fizeram nascer esperanças em todo o país com relação aos democratas. Convenceram muitas pessoas. Mas, se Obama vencer esta etapa, ainda terá que superar muitos preconceitos e barreiras na eleição final.

PERGUNTA – Ele está se convertendo num autêntico fenômeno de massas.
ROTH
- Ele é muito preparado, é brilhante. Tem um discurso articulado, possui essa energia contagiante, jovem e poderosa. Ele desperta muita esperança nas pessoas. Os democratas parecem estar encantados em poder votar em alguém assim. Quando eu era criança, recordo que elegemos para representante de classe o único garoto negro que havia na sala, e todos nós nos sentimos tão bem com nossas consciências…

PERGUNTA – Sua infância em Newark, Nova Jersey, esse território mítico…
ROTH
- Sim. Você conhece Newark?

PERGUNTA – Não, mas gostaria.
ROTH
- Então tome cuidado.

PERGUNTA – Verdade? O sr. vai muito para lá?
ROTH
- Não, não vou com freqüência. Dou uma volta por lá de vez em quando, sobretudo se vou escrever sobre o que acontece no bairro. Vou lá para rever velhos amigos, mas é preciso ter cuidado quando se vai a Newark. Há traficantes, drogas.

PERGUNTA – É mais um cenário de “Família Soprano” que dos romances de Philip Roth?
ROTH
- A “Família Soprano” parece um conto para criancinhas, comparada ao que existe de fato. É trágico. São perseguições com tiros, seqüestros, roubos de automóveis até mesmo com crianças dentro deles. É o pão nosso de cada dia. Por isso eu o aconselho: não vá.

PERGUNTA – Onde o sr. vive hoje?
ROTH
- Em minha casa em Connecticut, embora eu passe os invernos aqui, em Nova York, porque não suporto o frio. Estou ficando velho.

PERGUNTA – Enfrentar a velhice -essa é sua obsessão em seus últimos romances e memórias. Não está sendo fácil?
ROTH
- Escrevo sobre isso. O exorcizo. Isso me faz bem. Envelhecer é uma mudança muito dura na vida; não existe nada comparável. Você não imagina como é. Nem quando tem 30 anos, nem aos 40, nem aos 50. O que não poderia passar por sua cabeça é que o tempo acaba, que você já não sabe quantos anos lhe restam, se são cinco, se são seis. Você sabe que já não serão 20. Você chegou ao fundo. E depois, há as perdas. Um amigo meu morreu ontem. Primeiro você perde seus avós; depois, seus pais. Agora perde seus amigos. É muito duro. Além disso tudo, quando o tempo acaba, você vai perdendo suas faculdades. A memória -a possibilidade de perder a memória me apavora.

PERGUNTA – Ainda assim, em “Fantasma Sai de Cena”, o sr. identifica vantagens no envelhecimento…
ROTH
- Vantagens? Não, em meu livro não atribuo nenhuma vantagem à velhice.

PERGUNTA – Bem, quando o sr. diz que as últimas grandes respostas esperam ao final.
ROTH
- Ok, mas isso não é uma vantagem. É a vida. Não se iluda a esse respeito.

PERGUNTA – Por que não?
ROTH
- Porque não quero que tenha esperança nenhuma.

PERGUNTA – Ok, não terei. Tentarei, mas não lendo seus livros, então. Talvez não haja esperança nessa maneira de encarar a velhice, mas o sr. confere um sentido a ela.
ROTH
- Isso, sim. Mas porque não nos resta outra alternativa. A velhice é o destino irrevogável de todos nós, exceto para aqueles que não a alcançam. Depois disso nos acontece a morte. Você tem que se conformar com essa idéia. Quando eu estava na casa dos 30, eu refletia muito sobre a morte. Até que um dia eu disse a mim mesmo: “Esqueça isso! Preocupe-se com isso quando você chegar aos 75!”. Eu achava que nunca chegaria. Mas cheguei.

PERGUNTA – E o sexo? Como fica para Philip Roth o sexo, esse motor de toda sua literatura, na velhice?
ROTH
- Bem, muitas pessoas perdem o interesse pelo sexo. Para outras, o sexo é tão interessante quanto sempre foi, e ainda outros aceitam que estão fora do jogo.

PERGUNTA – E o sr.?
ROTH
- Eu? (riso). Eu sou daqueles que continuam a ter interesse por isso.

PERGUNTA – Os impulsos não desaparecem?
ROTH
- Eles não têm por quê.

PERGUNTA – Como um escritor tão explícito em relação ao sexo se adapta num país como dirigentes tão puritanos?
ROTH
- Este país é muito grande e tem muitas faces. A face puritana é uma, mas, se você olhar para como as garotas se vestem no verão, não definirá o país como puritano. Os jovens se iniciam no sexo aos 14 ou 15 anos, e a liberdade é enorme. O puritanismo nos EUA é uma ilusão de ótica. Este país é tão hedonista quanto qualquer outro no mundo.

PERGUNTA – Se o sexo define o comportamento humano, um país pode acabar sendo definido pelos esportes. O sr. retrata os EUA também por meio do esporte.
ROTH
- O esporte me interessa como torcedor. Quando eu era criança, gostava muito, jogava beisebol constantemente. Em “Pastoral Americana” há um herói esportista. Em “O Grande Romance Americano” também falo de beisebol, mas o esporte não domina minha vida. Mas não penso que possamos definir um país pelo esporte.


Entrevista publicada na Folha de São Paulo, a íntegra deste texto saiu no “El País”. Tradução de Clara Allain .

Trecho de “O inventor da solidão” de Paul Auster

maio 9, 2008

Ele observa seu filho. Vê o menino mover-se pelo quarto e ouve o que ele diz. Ele o vê lidar com seus brinquedos e o escuta falar consigo mesmo. Cada vez que o menino pega um objeto, empurra um caminhão pelo chão ou acrescenta um bloco de madeira à torre que cresce diante dele, fala sobre o que está fazendo, do mesmo modo que o narrador de um filme, ou então inventa uma história para acompanhar as ações que desencadeia. Cada movimento engendra uma palavra, ou uma série de palavras; cada palavra desencadeia outro movimento: uma reversão, uma continuação, um novo conjunto de movimentos e palavras. Não há um centro definido em nada disso (“um universo em que o centro está em toda parte, a circunferência em lugar nenhum”), exceto, talvez, a consciência , que é ela mesma um campo em constante transformação de percepções, memórias e expressões. Não há lei natural que não possa ser infringida: caminhões voam, um bloco torna-se uma pessoa, os mortos ressucitam à vontade. A mente infantil desloca-se sem hesitação de uma coisa para outra. Veja, ele diz, meus brócolis são árvores. Veja minhas batatas são uma nuvem. Veja, a nuvem é um homem. Ou então, ao sentir a comida tocar sua língua, e levantando o olhar cheio de um brilho malicioso: “Sabe como pinóquio e o pai escaparam do tubarão?” Pausa, deixando que a pergunta seja absorvida. Então, num sussurro: “Andando na ponta dos pés pela língua dele”.

Às vezes A. tem a impressão de que as perambulações mentais de seu filho, enquanto brinca, são a imagem exata de seu próprio avanço pelo labirinto do livro. ele chegou a pensar que se pudesse fazer um diagrama de seu filho brincando (uma descrição exaustiva, contendo cada mudança, associação e gesto) e depois fazer um diagrama semelhante de seu livro (elaborando o que ocorre nas lacunas entre as palavras, os interstícios da sintaxe, os espaços entre as partesa – em outras palavras, desenredar o carretel de ligações), os dois diagramas seriam iguais: um se encaixaria perfeitamente no outro.

A inviolabilidade da vida humana

abril 23, 2008

CLAUDIO FONTELES

Por que insistir em pesquisa que tem caminhada de dez anos e nenhum resultado? Ou melhor, cujo resultado é violar a vida humana?

A PROFESSORA Lygia Pereira, em recente artigo, perguntando-se sobre o que considerou “uma nova polêmica [que] surgiu no mundo todo: esse embrião é uma vida ou não?”, foi rápida e enfática na resposta: “Ora, é claro que ele é uma forma de vida humana, assim como um feto, um recém-nascido e um idoso também são”.
Pensei: bem, a controvérsia está terminada, ao menos entre nós dois, pois, se o embrião, o feto, o recém-nascido e o idoso, todos constituem-se forma de vida humana, vistos por certo nos estágios cronológicos de sua existência, o embrião é vida humana.
Mas eis que a professora Lygia prossegue e, após estabelecer que “a real questão é “que formas de vida humana nós permitiremos perturbar?’”, sustenta que “a “vida” mencionada na nossa Constituição já é legalmente violada em algumas situações”. Elenca a morte cerebral e a permissão do aborto em caso de estupro ou de risco de vida para a gestante a perguntar, então: “E aquele embrião de cinco dias, produzido por fertilização “in vitro” e armazenado em um congelador, em que condições ele é uma forma de vida passível de ser violada?”, para responder: “A Lei de Biossegurança, de 2005, permite o uso para pesquisa de embriões inviáveis -que não sejam capazes de se desenvolverem em um recém-nascido ou que estejam congelados há mais de três anos”.
Anotado o eufemismo “que formas de vida humana nós permitiremos “perturbar’” e poucos dias após o início do julgamento, eis que a imprensa brasileira, em decisiva matéria sobre o assunto, documenta a existência do menino Vinícius, de seis meses, embrião congelado por oito anos, destacada a frase de sua mãe, Maria Roseli, a dizer: “Imagine se eu tivesse doado o embrião para pesquisa”.
É a comprovação clara do que a professora Alice Teixeira asseverou na audiência pública, no que não foi contestada até hoje, no sentido de que há no mundo, especificamente nos Estados Unidos, pessoas, embriões congelados por sete, nove e até 13 anos. No Brasil, a professora Alice Teixeira apontou o caso de Alissa, embrião congelado por seis anos. Por certo, inúmeras são as pessoas, embriões congelados por vários anos.
Tais fatos, tão inequívocos, constatam que o prazo único de três anos, posto no artigo 5º da Lei de Biossegurança, após o que autorizada estava a pesquisa com embriões, é prazo aleatório, destituído de qualquer fundamento científico sério. O princípio constitucional que consagra como direito individual fundamental a inviolabilidade da vida humana queda inexoravelmente comprometido ao permitir-se que permaneça a eliminação do embrião humano, para qualquer fim. Inviolabilidade da vida humana significa destacar e colocar em patamar supremo a existência do ser humano.
Como manter pesquisa cujo objeto são embriões humanos congelados se, quando descongelados e implantados no útero materno, vivem? Se há os que morrem, há os que vivem. Aí estão Alissa, Vinícius e tantos mais.
O princípio da inviolabilidade da vida humana não se define por estatísticas. Demonstrado e provado, como está, e por forma inequívoca, que o embrião congelado por mais de três anos vive, a norma jurídica que autoriza sua eliminação para pesquisa é flagrantemente inconstitucional.
Como, ainda, diante de fatos tão claros e inequívocos, dizer que Alissa, Vinícius e tantos mais não são vidas humanas, não são brasileiros, porque foram embriões congelados e, segundo o pensamento do relator, ministro Carlos Britto, fecundados “in vitro”, estariam condenados à solidão infinita e vida neles não há?
Depois que propus a ação direta de inconstitucionalidade, linhas várias de pesquisa se abriram, a indicar o valor do líquido amniótico, da placenta, do cordão umbilical, a presença das células-tronco adultas nas paredes de todos os vasos sanguíneos -aqui, graças ao trabalho de equipe de pesquisadores da USP de Ribeirão Preto, segundo declaração à imprensa do professor Dimas Tadeu Covas-, no tratamento das doenças degenerativas.
O professor Thompson, quem primeiro pesquisou com células-tronco embrionárias, abandonou essa linha de pesquisa para concentrar-se, como o faz o professor Yamanaka e equipe, em outra vertente: a reprogramação genética das células adultas, conduzindo-as à pluripotência.
O leque de pesquisas está aberto. Por que insistir naquela vertente que já tem caminhada de dez anos e cujo resultado é nenhum ou, a dizer com a realidade, cujo resultado é violar a vida humana?
Termino repetindo o alerta de Maria Roseli, mãe de Vinícius: “Imagine se eu tivesse doado o embrião para pesquisa”.


CLAUDIO FONTELES, 61, mestre em direito pela UnB (Universidade de Brasília), professor de direito processual penal, é subprocurador-geral da República. Foi procurador-geral da República de 2003 a 2005.

****SEGUE ABAIXO A CARTA DE UM ADMIRADOR DO NOBRE E EXCELENTÍSSIMO EX-PROCURADOR GERAL DA REPÚBLICA

“Diante do brilhante e incontestável artigo “A inviolabilidade da vida humana” do grande Cláudio Fonteles, não pude deixar de manifestar aqui o meu apoio e confessar que algo parecido ao ocorrido com a Senhora Maria Roseli, mãe do Vinícius, se passou comigo.

Numa cálida tarde de sábado, diante da imoderada exposição de carne feminina da programação televisiva e da ausência de minha esposa, fui tomado por um desejo pujante de me aliviar do modo habitual dos adolescentes. Quando quase cedia à tentação, um belo canto de louvor entoado por uma respeitável senhora que vive no apartamento ao lado despertou-me daquele transe. O canto, de tão belo, me fortaleceu e consegui resistir à tentação de me aliviar com a mente impregnada com a imagem daquelas voluptuosas dançarinas. Aguardei a chegada de minha esposa e naquele dia foi fecundado o que hoje é meu sétimo filho, Setembrino. Bem como a senhora Maria Roseli chegou a dizer “Imagine se eu tivesse doado o embrião para pesquisa”, quase todos os dias, principalmente quando observo a saúde de Setembrino e dos meus outros seis filhos penso: “Imagine se eu tivesse sucumbido à tentação”. Sei que a dispensa de meus gametas não seria o mesmo que o descarte do embrião, mas de certa forma seria o descarte de meia vida, e caso eu tivesse me aliviado naquela tarde, eu poderia mesmo assim ter fecundado minha esposa, mas não seria abençoado pelo nascimento de Setembrino.”

 

 

 

 

 

Entrevista com Philip Roth

janeiro 10, 2008

janeiro 5, 2008

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